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Aprendizagem off-line: a importância do sono para o seu treino

O sono não é essencial pra quem treina apenas porque ajuda na recuperação muscular, mas também porque ajuda no processo de aprendizagem motora!

por Rafael Krasic Alaiti

Aprendizagem Off-line: a importância do sono para a consolidação daquele movimento difícil que você treinou

É de conhecimento comum que, durante o sono, ocorre uma série de processos fisiológicos em nosso corpo cuja principal função é manter a homeostase (equilíbrio) do organismo.

Dentre estes processos, estão as diversas alterações metabólicas e imunológicas que influenciam a regeneração de nosso aparelho musculoesquelético e são responsáveis pelo processo de super-compensação pós-treino.

Na fase do sono conhecida como R.E.M. (de “rapid eye movement”, ou “movimento rápido dos olhos”), em que os sonhos são mais vívidos e atividade cerebral é intensa, acontecem duas funções de grande importância no processo de melhora de seus movimentos relacionados à prática esportiva – e que são comumente negligenciadas.

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1- Uma parte do aprendizado ou da melhora de um padrão de movimento ocorre enquanto você dorme!

Em um primeiro momento, a prática de um exercício ou padrão de movimento leva a modificações funcionais nas redes sinápticas (zonas de conexão entre os neurônios) relacionadas ao seu controle, que produzem uma otimização do desempenho motor.

As áreas cerebrais ativadas durante o treinamento são resgatadas durante o sono R.E.M. da noite seguinte (até 24 horas pós-treino), produzindo alterações estruturais da rede sináptica que permitem que estas modificações do desempenho motor sejam duradouras.

Este ganho off-line parece ser específico dos movimentos treinados e requer um estado de saturação da performance, o que significa que você precisa ter realizado aquele movimento complexo até que uma certa constância de acertos seja obtida para que este processo ocorra.

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2- Dormir, mesmo que um cochilo de 30 minutos, impede que a prática de outros movimentos influencie no processo de aprendizagem.

Quando estamos aprendendo um movimento novo, mesmo que tenhamos atingido um estado de estabilização do desempenho, o treinamento de um segundo movimento no mesmo dia pode influenciar na aprendizagem do primeiro (o que ocorre corriqueiramente quando realizamos um treino de uma modalidade esportiva pela manhã e outro de noite, por exemplo).

Aqui, é importante diferenciar o desempenho da aprendizagem motora. Às vezes, podemos ter um desempenho bom num determinado treino onde estamos aprendendo ou melhorando uma série de movimentos complexos (isto é, desempenho), porém isso não quer dizer que o desempenho obtido será mantido em um segundo momento, quando você for realizar aqueles movimentos novamente em outro dia (aprendizagem).

Este processo de interferência parece ocorrer apenas quando o mesmo circuito de neurônios é requisitado pelos movimentos que estão sendo praticados.

Porém, um dado interessante é que o sono, mesmo na forma de um cochilo de 30 minutos, exerce um efeito protetor sobre a consolidação do que está sendo aprendido e impede a interferência da prática de outros movimentos sobre o processo. Neste caso, ocorre uma pequena consolidação off-line que é finalizada durante o sono noturno.

Os benefícios do sono, assim como os malefícios de sua privação, vem sendo muito estudados e nos permitem afirmar com cada vez mais certeza uma coisa: dormir bem é tão importante quanto treinar para a melhora de sua performance esportiva!

rafael-alaitiProf. Rafael Krasic Alaiti

Fisioterapeuta e neurocientista, especialista em Reeducação Funcional da Postura e do Movimento pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e é sócio-fundador do Instituto Opus Magnum.

Atualmente é professor convidado dos cursos de especialização em fisioterapia do Hospital das Clínicas (HCFMUSP), onde ministra aulas relacionadas a neurociência, comportamento motor, biomecânica e neurofisiologia da dor aplicadas à reabilitação de pacientes com queixas musculoesqueléticas e com dor crônica relacionada à prática esportiva.

Além disso, é coordenador do Grupo de Estudos de Neurociência, Percepção e Comportamento aplicada à Reabilitação (G.E.N.P.C.) da USP e mestrando pelo programa de Neurociência e Comportamento da USP.

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